Portanto, a esmagadora maioria das espécies de aranhas são inofensivas aos seres humanos. É importante conhecer as espécies que podem provocar acidentes graves, suas características morfológicas, distribuição geográfica, hábitos e comportamentos.

As aranhas-armadeiras (gênero Phoneutria) são certamente as que provocam mais temor na população. São aranhas grandes, que podem chegar a 17 centímetros de comprimento com as pernas esticadas. A espécie mais estudada, Phoneutria nigriventer, vive no Sul e parte do Sudeste do Brasil. Elas apresentam coloração marrom com manchas claras no dorso do abdômen e duas faixas escuras divergentes na face. Possuem pequenas manchas brancas nas pernas, de onde saem espinhos negros. Os machos têm as pernas mais longas e finas e o abdômen menor do que as fêmeas.

O nome popular vem do comportamento defensivo característico que apresentam quando incomodadas. Elas levantam os dois pares de pernas anteriores e o corpo, que fica em posição vertical, apoiando-se nas quatro pernas traseiras. Abrem as quelíceras, que tem na extremidade os ferrões, por onde podem injetar um poderoso veneno, e se movimentam em direção a qualquer vibração que esteja próximo delas, mantendo-se na posição “armada”. Às vezes, elas se movimentam rapidamente para frente e para trás tentando picar.

Esse comportamento assustador é reforçado pelas cores vermelhas das quelíceras e o contraste entre o laranja, o preto e o branco do seu corpo e pernas, que são cores de advertência. Porém, na maioria das vezes, ao serem encontradas, elas preferem fugir. Somente quando encurraladas é que assumem esse comportamento, já que a fuga não é possível e só resta a elas enfrentarem a ameaça que estão sofrendo.

Essas aranhas não são as únicas que erguem as pernas anteriores quando incomodadas. Muitas outras têm esse comportamento. Porém, as armadeiras fazem isso quase tirando todo o corpo do solo e mantendo-o na posição vertical, o que as outras geralmente não fazem. São muito ágeis e podem subir mesmo em superfícies lisas, como azulejos e vidros, uma vez que possuem cerdas modificadas na ponta de cada uma das pernas funcionando como pequenas ventosas.

Existem oito espécies conhecidas de armadeiras e todas podem ser encontradas no Brasil. Estão associadas a áreas florestadas ou a matas ciliares ou de encostas quando em regiões de cerrado ou campo. Três espécies são amazônicas e cinco ocorrem em outras regiões, exceto em uma área que vai do estado de Sergipe em direção norte até o centro do Maranhão, onde nunca foram registradas.

As armadeiras vivem na vegetação, saindo à noite para caçar insetos. No período reprodutivo da Phoneutria nigriventer, que ocorre em abril e maio, elas costumam se movimentar mais durante a noite e acabam se aproximando ou entrando nas casas. Ao amanhecer, escondem-se em locais escuros. É comum que entrem em sapatos, o que acaba causando acidentes, pois a aranha não tem para onde fugir quando o sapato é calçado e acaba picando. Em locais de ocorrência da espécie, é importante ficar atento a esse comportamento, bater os sapatos antes de calçá-los, ter muito cuidado ao apanhar objetos e impedir que entrem por baixo de portas colocando rodinhos ou sacos com areia e telando as janelas. Ao mexer em plantas ou remover pilhas de telhas ou tijolos é recomendável usar luvas grossas e tomar muito cuidado, pois são locais normalmente utilizados como abrigos.

Ao encontrá-las, não entrar em pânico. Elas enxergam muito mal e provavelmente nem notaram a sua presença. Aranhas percebem muito bem vibrações e movimentações de ar. Portanto, se tiver que se aproximar, tente provocar o mínimo de vibrações ao andar e ao se movimentar próximo a elas, caso contrário perceberão a movimentação do ar.

O veneno das armadeiras é neurotóxico e os acidentes provocam dor muito forte e imediata. Existem casos registrados de óbitos, mas são muito raros. Caso aconteça um acidente, deve-se procurar o serviço médico o mais rápido possível, de preferência nas primeiras três horas  após o ocorrido.

Existe muita pesquisa científica sobre venenos de aranhas. Compreender como esses venenos agem no organismo humano pode ajudar a entender como uma série de doenças ocorrem e a auxiliar  nos tratamentos e no desenvolvimento de novos fármacos.

No caso da armadeira, os trabalhos em desenvolvimento indicam que o veneno dessa aranha pode ajudar a entender como tratar doenças do sistema nervoso, principalmente algumas que envolvem diretamente o cérebro. Outras pesquisas indicam que pode auxiliar no desenvolvimento de drogas para tratamento de disfunção erétil e da dor. O veneno que muitos animais produzem são uma enorme fonte de substâncias que podem ter aplicação na medicina, ajudando a salvar milhares de vidas ou aliviar o sofrimento.

Fonte: Fauna News