Imagine abrir a tampa do vaso sanitário da sua casa e encontrar uma jiboia lá dentro. Com certeza você levaria um susto daqueles! Pois foi o que aconteceu com o morador de um apartamento em Ribeirão Preto em agosto do ano passado. A cobra com quase dois metros provavelmente entrou pela rede de esgoto do prédio, subiu quatro andares até chegar ao banheiro da suíte. O morador chamou os bombeiros que resgataram o bicho e soltaram numa área adequada.

O prédio fica numa região muito urbanizada da zona Sul da cidade e a aparição levantou questionamentos. Por que ela foi parar ali? Uma das hipóteses é que estava em busca de comida, provavelmente atrás de algum roedor presente no esgoto. Mas a jiboia também pode ter fugido das queimadas que naquela época pipocavam por todos os cantos, inclusive em matas ciliares e bordas de rios, ambientes preferidos da espécie.

Um dia depois uma urutu-cruzeiro (Bothrops alternatus) apareceu em um condomínio de casas na mesma região de Ribeirão Preto. A serpente peçonhenta estava perto da portaria dentro de uma caixa de inspeção da rede elétrica. Um grande incêndio havia atingido uma mata próxima. Um funcionário do condomínio retirou a cobra e soltou numa área que não foi atingida pelo fogo.

“Quando a queimada vem os animais ficam perdidos e tentam se deslocar para onde eles conseguem. Se o fogo estiver empurrando para a cidade é muito comum eles irem para cidade em busca de abrigo. Muitas vezes esse abrigo é o forro da casa ou onde tem material de construção acumulado, entulho ou lixo”, afirma Renato Gaiga que é herpetólogo, especialista em répteis e anfíbios.

Este ano as queimadas e incêndios do inverno já começaram e casos assim tendem a se tornar frequentes. O médico veterinário César Branco, do Bosque Municipal de Ribeirão Preto, diz que “inúmeras espécies de aves, mamíferos, répteis e até anfíbios podem entrar nas residências fugindo de incêndios. Desde animais pequenos e inofensivos até grandes mamíferos como onças-pardas e lobos-guarás”. Muitos deles aparecem feridos. Entre os bichos socorridos pela equipe do bosque nos últimos anos estão o veado-catingueiro, tamanduá-bandeira, cachorro-do-mato, saguis, bugios, lagartos-teiús e gambás.

Aqueles que conseguem se recuperar são devolvidos à natureza, mas muitos morrem ou ficam com sequelas e passam a viver em cativeiro

O Programa Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou no Brasil de 1 de janeiro até ontem (22) 75.468 focos de incêndio, número muito próximo ao mesmo período do ano passado quando foram contabilizados 76.391 focos. Mas nos estados do Sudeste houve um aumento de 56%. Os satélites do Inpe identificaram 7.679 focos na região esse ano contra 4.908 até o dia 22 de agosto do ano passado. No estado de São Paulo o aumento foi de 26%.

O mapa do risco de fogo mostra uma enorme mancha vermelha sobre quase todo o país indicando que nosso território pode voltar a arder em chamas assim como em 2020 e 2019, anos com maior número de focos de incêndio desde 2010.

Em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, o incêndio já consumiu 60% da vegetação no Parque Estadual do Juquery, um dos poucos remanescentes de cerrado no estado. No município de Luís Antônio bombeiros e brigadistas tentam controlar o fogo na maior reserva de cerrado de São Paulo, a Estação Ecológica do Jataí.

Valinhos, na região de Campinas, enfrentou em julho um dos maiores incêndios da história da cidade. O fogo consumiu 10 hectares de mata na Serra dos Cocais. As chamas chegaram perto de alguns condomínios e também se aproximaram da rodovia Anhanguera.

“Os incêndios influenciam direta e indiretamente a vida selvagem. De forma indireta, por coincidirem com o final do inverno e início da primavera quando os animais começam a formar casais para reproduzir, atrasando e as vezes impedindo a reprodução de diversas espécies. Além de influenciar diretamente contribuindo com a morte de inúmeros animais silvestres queimados, intoxicados ou que são atropelados ao fugirem dos incêndios”, afirma César Branco.

Mas o drama não termina aí. “Com a perda da vegetação original os animais precisam procurar outros ambientes e aí ocorre um desequilíbrio na cadeia alimentar. Herbívoros que não tem do que se alimentar vão embora, consequentemente os carnívoros perdem suas presas e isso vai acontecendo em cadeia”, afirma Renato Gaiga. Um bom exemplo é dos roedores que se alimentam de frutos e sementes. Se eles somem as cobras também ficam sem alimento e podem parar em caixas de inspeção ou até dentro das privadas.

O biólogo Luciano Lima ressalta que esses “esconderijos urbanos” são temporários, procurados pelos animais no desespero de fugir do fogo. Depois, por conta própria, ou pela mão do homem, os bichos encontram morada em outra área selvagem. “Quando eles vão colonizar outra área já vão ter outros animais morando ali, portanto, além do impacto na área que foi atingida, o incêndio também vai impactar uma área não destruída por causa do deslocamento de animais que vão pra lá. Onde viviam três jiboias vão passar a viver nove”, exemplifica. A consequência disso é a competição acirrada por comida, abrigo e território.

Outra preocupação dos especialistas é o contato desses bichos com o ser humano. Não é incomum animais serem mortos ou feridos quando aparecem em áreas urbanizadas. O risco contrário também existe: quando a pessoa é atacada pelo animal acuado ao tentar pegá-lo ou manipulá-lo. “Independentemente da espécie de animal silvestre, você deve ligar imediatamente para o Corpo de Bombeiros (193), Polícia Ambiental de sua cidade ou para algum Centro de Triagem de Animais Silvestres ou Zoológico", afirma o zootecnista César Branco.

As consequências de uma queimada ou incêndio já são terríveis por si só. Tentar reduzir os riscos é o mínimo que podemos fazer.

Fonte: G1